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 Alunas do Ensino recorrente em Vila da Ponte - 2000

26 de Outubro de 1999
Isaura dos Santos Ferreira

Com 74 anos aínda vou para a escola
Espero acabar o meu curso para receber uma esmola.

A professora de Francês é um pouco exigente
Mas ensina muito bem e eu fico muito contente

A professora de Português parece uma bonequinha
Mas ensina-me o que eu não sei como fazia a minha mãezinha

O professor de Matemática é um jovem muito querido
Mas é obrigado a rir-se com as coisas que eu lhe digo

E mais lhe quero dizer que uma jovem como eu é difícil de aprender

Quando eu vou para a Escola apanho frio e chuva
Mas vou passar o meu tempo porque sou mulher viuva

Os professores e as alunas dão-se todos muito bem
Eu como sou a mais jovem respeitam-me como mãe

  Eu peço a Nossa Senhora que ajude os meus superiores
E que ajude toda a gente dos mais pobrezinhos aos doutores

A senhora professora Dulce é que nos meteu nesta brincadeira
Espero que ela arranje dinheiro depressa para nos levar à ilha da Madeira

O telemóvel tocou, aínda toca outra vez
É sempre dentro da pasta da professora de Português

 

Janeiro 2000
Isaura dos Santos Ferreira

Acabaram as festas do Natal, agora são as dos Reis
Olhai lá se em vossas casas tendes coisas que nos deis

Senhora professora Dulce boas festas vos queremos dar
Que a senhora seja feliz para muita gente ajudar

Vamos cantar-lhe os Reis sentadinhas na cortiça
Mas esperamos que nos dê uma valente chouriça, e talvês um salpicão
E para a mesa ficar bem posta, também tem que nos dar pão

E aínda outra coisa – é um garrafão de vinho
Mas como nós somos muitas só bebemos um copinho

E com está muito frio para fazer-mos uma fogueira
para assar as chouriças, nem que seja na lareira

Senhora professora Dulce isto é uma brincadeira
Mas esperamos que nos diga se vamos à ilha da Madeira.

Dizem que há lá lindas flores como eu aínda não vi
Mas também quero cumprimentar o Alberto João Jardim

Como eu nunca tive férias, e não sabia fazer nada, só sabia trabalhar
Mas agora esto reformada, já tenho muito vagar
Só que a reforma é pequena e não me posso alargar

Eu vou pedir a quem manda que me dê mais uns tostões
E aínda vou ver seconsigo ir à roda dos milhões.

Já estou a pedir demais, mas ficava muito contente
Se me saíssem vinte mil contos, dividia com muita gente

A toda a gente que me ouve, vou pedir muita desculpa
Porque quem não me conhecer, julga que eu sou maluca.

Alunas de Vila da Ponte são loucas, mas têm valor
Há casadas e viuvas mas aprendem com amor

No dia dezasseis de Dezembro vamos todas até ao restaurante Beira-Rio que nos fazem lá o jantar

Alunas de Sernancelhe vêm-nos fazer companhia
Jantamos todas no restaurante e vai ser uma alegria

Senhora das Necessidades que estais no cimo do Monte
Para ajudar as alunas de Sernancelhe, e também as de Vila da Ponte.

  Viva o senhor Leonel e també a Dª Otília
Que nos receberam também, como recebem a família.

  As professoras e o professor que arranjaram esta organização
Que Nossa senhora os ajude e o que peço e o que eu desejo do meu coração

  Sou viuva e vivo só, numa triste solidão.
Vou toda contente à escola, lá alegro o meu coração

As lágrimas que eu tenho chorado, faziam rodar um moínho.
A maior pena que tenho é de quem vive no mundo sozinho

Não tenho ido à escola, são as férias do Natal
Mas tem-me feito tanta falta o convívio que lá passo
Que até me tenho sentido mal

Como eu vivo sózinha numa triste solidão
O convívio que lá passo alegra-me o coração

Tanto às professoras como ao professor todas as alunas querem do coração
Gostamos muito de todos porque nos dão muita atenção

Tenho setenta e quatro anos, estudos para mim já pouco podem valer
Mas vou passando o meu tempo e aínda gosto de aprender

Qualquer dia vou-me embora para onde temos de andar
Mas no Céu hei-de pedir a Deus para as professoras e o professor ajudar

Quando acabarem as aulas todas, vão para as sus terras
Só o que fica mais perto é o professor que vive em Nelas

Quando elas se forem embora eu não as voltarei a ver
Mas o carinho que me têm dado eu nunca mais vou esquecer

Eu trabalhei tanto, tanto e vivi muito pobrezinha
Agora vejo-me só, triste, sorte foi a minha

Meus filhos são muito queridos, mas têm de trabalhar também
Adoro os meus netinhos, mas andam todos a estudar
Se eu for para casa deles, sozinha tenho de estar

Cá vou vivendo sozinha, só enquanto eu puder, depois vou para os meus filhos
Há-de ser o que Deus quiser.

Vila da Ponte, 11-4-2000
Isaura dos Santos Ferreira

Senhora professora Elsa, eu quero-a felicitar
Pelo trabalho que tem tido para o Francês nos ensinar

A senhora professora Maria José ensina-nos o Português
Eu já saí da escola há setenta e quatro anos, e ando lá outra vez

O senhor professor Fonseca passa-nos cada rasteira
Tem-nos ensinado tantas contas, mas para nós agora já é uma brincadeira

Todos nos ensinam bem, e são pessoas muito queridas
E tratam também as alunas e de todas são amigas

Quando acabarem as aulas eu já ando a pensar
E peço a Nossa Senhora que aínda as volte a encontrar

Para outro lado que vão Nossa Senhora as ajude,
E que sejam muito felizes e que Deus lhes dê saúde

Eu afeiçoei-me às pessoas mas sempre fui assim,
Que Nosso Senhor as ajude e que lhe dê tudo de bom como eu desejo para mim

Por Deus sejam abençoadas, são esses os meus desejos
E que aínda as volte a ver para lhes dar dois grandes beijos

Eu vivo sozinha e triste e com muita solidão
Elas têm-me ajudado muito, a alegrar o meu coração

Os estudos para mim pouco me podem valer,
Mas o carinho que me deram, eu nunca vou esquecer

 
   

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