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Do peitoral da minha Janela - Joaquim Moreira Lopes
 
Professor João Albino Sobral Ferreira

 
 
Os habitantes das Arnas, no labutar constante da faina agrícola e pastoril, retemperam as energias na solidão e isolamento, ao pé de fraguedos e penhascos rudes e abruptos, a ouvirem o ecoar desconcertante da ventania com o açoitar dos ramos nos pinheirais fronteiros.
A actividade e o trabalho da sua gente confundem-se num esforço comum de ajuda mútua, na ânsia de minorarem as asperezas da vida.
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E foi neste ambiente aquecido pelo sol do dia e banhado pelo luar pálido da noite que há pouco mais de um século se abeirou da pia baptismal da matriz de Nª Sª da Conceição das Arnas, um neófito a quem foi posto o nome de João Albino Sobral Ferreira.
De temperamento próprio do meio, despertou para a vida de incertezas e esperanças, enfrentando-a sempre com coragem, sangue frio e decisão.
Enérgico e activo, não hesitou, em tempos de luta e descrença, em aceitar o desempenho de cargos que não ambicionava. Numa época de cega-regas locais, os ódios e as iras desvairavam os espíritos e escureciam o panorama das relações sociais do meio.
Os desacatos de toque de caldeiras nocturno e o apedrejamento domiciliar levaram as autoridades a cuidadosa vigilância. E, traiçoeiramente no escuro da noite, os desordeiros culminaram as suas arruaças com uma brutal agressão ao regedor, Chico do Picoto, e ao administrador, Pereira de Figueiredo.
Aliciados por comando oculto, minorias turbulentas criaram uma atmosfera de mal-estar que alastrou em perturbações constantes.
Foi por essa época e nesse ambiente que o professor João Albino Sobral Ferreira assumiu a responsabilidade da gerência dos destinos do concelho de Sernancelhe.
Pelo aprumo, simpatia e prestígio pessoal, pôde conter, em convívio sereno, a onda turbulenta de tão triste memória.
Espírito esclarecido, actuou sempre com oportunidade e decisão. De convicções e raízes tradicionalistas, adversários e corregelionários tinham por ele estima e respeito.
Em conflitos entre povoações por questões de festividades, corte do cepo pelo Natal, baldios e águas, a prudência e firmeza foram as armas de que o professor Sobral Ferreira se serviu para conduzir as quetões, levando as partes a entendimento e a acabarem com velhas rixas.
Nas reuniões do Senado municipal, na qualidade de Presidente do Executivo, encaminhava as coisas de modo a vingar o seu ponto de vista, embora, previamente, a maioria dos votantes tivesse acordado em lhe ser contrária.
Consciente dos seus deveres, dava exemplos de isenção e mantinha à distância aqueles que viam nas coisas da Câmara, roupa de francês, ou terra sem dono.
O Professor Sobral Ferreira exerceu o magistério na freguesia do Poço do Canto do Concelho da Meda, durante anos. Aí casou e constituiu família. Mais tarde transferiu-se para a Vila da Ponte onde sua esposa tinha bens.
Casou em segundas núpcias com D. Elisa da Piedade Abrunhosa, de cujo casal ficaram dos filhos: o Engenheiro Aureliano Sobral Gomes, sem descendentes, e D. Elisa Gomes Sobral Leitão, há muito falecida, que foi sogra do saudoso amigo António Dias Leitão, de Fonte Arcada, recentemente falecido e de cujo casal ficaram duas filhas: Inês Sobral Gomes Abrunhosa Leitão (mãe do Dr. António José Leitão Canotilho), e Elisa da Glória Sobral esposa do Dr. Domingos Requeijo, cirurgião pediatra e natural de Fonte Arcada.
Pela Vila da Ponte e por ali se manteve em serviço activo, no modelar de caracteres e no desbravar de cérebros, funções a que se devotou com vontade e entusiasmo.
Em 1919 passou à inactividade, vindo a falecer em 1935 com 72 anos de idade.
Tive oportunidade de contactar e observar o Professor Sobral Ferreira na sua vida familiar, política e social. Convivi com ele. E não é sem saudade que evoco a sua memória para relembrar os seus conselhos e recomendações quando, na sua própria escola, iniciei a carreira do magistério.
Bairrista por temperamento, preocupava-o o desenvolvimento do seu Concelho e da terra que adoptou por sua: a Vila da Ponte.
Chefe de família exemplar, político discreto, beirão por nascimento e pelo coração
, quero, nesta hora conturbada em que a onda de indiferença das elites concelhias marca uma tendência amarga de descrença e desinteresse, evocar a sua figura prestigiosa, animada de espírito e acção, a quem o Concelho muito deve.
Que o entusiasmo e espírito do Professor João Albino Sobral Ferreira ressurjam com luz de esperança a reanimar e iluminar a juventude anónima para levar à recuperação das crenças perdidas e a despertar nos responsáveis energias renovadoras para bem servirem as terras beiroas que tiveram por berço!...

«Extracto do livro "Do peitoril da minha janela publicado em 1973" de Joaquim Moreira Lopes, edição fac-similada pela Câmara Municipal de Sernancelhe em Abril de 2000»

«Pequena alteração efectuada na redação deste texto, apenas para actualização de descendentes contemporâneos do Professor João Albino Sobral Ferreira»

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