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Do peitoral da minha Janela - Joaquim Moreira Lopes
Características da população de Vila da Ponte - Pérola do Távora - 1973

 
 
Vila da Ponte
                                                                                           
Pérola do Távora

Esta ridente povoação, surge-nos dos seus encantos, estendida ao longo das suas ruas e praças, adormecida à beira do Távora, no lugar onde o Rio, junto aos moínhos, na foz do Medreiro, brilha em pequenas cachoeiras espumantes e a Ponte Românica nos mostra os quatro arcos apoiados na rocha, e, a silharia siglada e lavrada a pico miudo.
A Ponte que foi alargada e acachorrada ruíu recentemente na parte do poente, porque ao pavimentarem a cubos o tabuleiro horizontal, cortaram as pedras de ligação entre a construção primitiva e a faixa de alargamento. E agora foi arranjada ficando a parte do poente do tabuleiro, mais estreito, para os lados da capelinha dos Senhor dos Passos que parece fazer parte da própria Ponte.
Para jusante o Rio corre por entre alas duplas de amieiros e salgueiros, com a faixa larga do areal e a chã graciosa onde se levanta a residência paroquial a encostar-se à direita, ao solar dos Gouveias.
É um lugar recreativo no Estio para as pessoas que para lá vão passar a tarde à sombra fresca do arvoredo, e para os rapazes que ali aparecem, durante o dia, para nadar.
O Rio tem muitos atractivos; para baixo do Salgueiral e dos Moínhos dos Lobos a caminho da levada do Pontigo, há trechos de vegetação exuberante com fetos majestosos que nos encantam.
As águas saltam a respingar distante as pedras bravas e escorregadias que um maciço de verdura envolve.
Saltitam de ramo para ramo as aves que gorjeiam num voejar inquieto. A narceja e o pica-peixe passam, na sua cor garrida, a rastejar a água.
Os moinhos aparecem curiosos na forma primitiva como os do Manuel da Cruz, cheios de hera e telhado empoeirado de branco. Não alinha no grupo o moinho do Abel de Aquino que, modernizado, tem anexo um lagar de azeite com os mais aperfeiçoados apetrechos mecânicos que o valorizam.
Nos Bairros, junto à Faia, alarga-se em patamar. É por ali que vem a ficar o centro da albufeira cujas obras estão em curso.
E é devido à barragem do Távora que as águas vêm represar até à Vila da Ponte, que a estrada nº 226 que lhe passa a poente, vai ser desviada, brevemente, numa extensão de perto de um quilómetro.
Pela Ponte passa a estrada de ligação para Sernancelhe e a que vai por Ferreirim ligar as povoações de Fonte Arcada, Escurquela, Macieira e Chosendo com saída para Penedono e por onde circula uma carreira de passageiros com ligação para Viseu e outras que dali vão para a Régua e Guarda.
A Vila da Ponte é povoação antiga com o nome apenas de Ponte. Em 1661 foi elevada a cabeça de condado e foi seu senhor Francisco de Melo Torres, embaixador em França e em Inglaterra e general do exército que a elevou à categoria de Vila.
Em 1855 foi extinta e encorporada no Concelho de Sernancelhe ao qual aínda hoje pertence.
É padroeira Nossa Senhora do Amial, o que tudo indica que a povoação, por estar junto das Ribeiras do Medreiro e da Minhoteira, além do Távora, no vale em que assenta, devia ter muitos amieiros, hoje reduzidos pela necessidade de alargar as terras de cultivo. O casario da Vila da Ponte estende-se pela estrada que vai para Ferreirim e a rua que segue para Sernancelhe, alargando-se na praça onde está o Pelourinho e a casa brasonada dos Cardosos e Lucenas.
Nesse largo viveu o antigo médico Dr. Soeiro, figura exótica pelas extravagâncias de vestuário. Lembra-me vê-lo em pijama vermelho carregado, chinelos da mesma cor e barrete de veludo na cabeça a desafiar os rapazes da moda de hoje.
Associava admiravelmente com o pároco de então o Revº Manuel Pires, o Cordeiro, especialmente em festins pantagruélicos.

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