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 Ex-voto:
gesto e memoría


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Ex-voto à Senhora das Necessidades.
1855. Pintura s/ madeira. 28*35,5 cm.
Capela da Senhora das Necessidades.
Vila da Ponte, Sernancelhe.

 

 

 


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Ex-voto à Senhora das Necessidades.
1856. Pintura s/ madeira. 31,5*44,9 cm. M.A.U.C. Capela da Senhora das Necessidades. Vila da Ponte,
Sernancelhe.

 
 
 


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Ex-voto à Senhora das Necessidades.
1872. Pintura s/ madeira. 36,5*29 cm.
Capela da Senhora das Necessidades.
Vila da Ponte, Sernancelhe.

 

 


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Ex-voto à Senhora das Necessidades.
Carlos Massa. 18785. Pintura s/ madeira. 19*26,5 cm. Capela da Senhora das Necessidades.
Vila da Ponte, Sernancelhe.

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Ex-voto à Senhora das Necessidades.
Carlos Massa. 1886. Pintura s/ madeira. 31,5*43,6 cm. Capela da Senhora das Necessidades.
Vila da Ponte, Sernancelhe.

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Ex-voto à Senhora das Necessidades.
1890. Pintura s/ madeira. 33*56 cm.
Capela da Senhora das Necessidades.
Vila da Ponte, Sernancelhe.
ex-voto-sra-necessidades-7.jpg (8167 bytes)
Ex-voto à Senhora das Necessidades.
1909. Pintura s/ folhas de Flandres. 26,5*30 cm. Capela da Senhora das Necessidades.
Vila da Ponte, Sernancelhe.

ex-voto-sra-necessidades-8.jpg (11426 bytes)
Ex-voto à Senhora das Necessidades.
1855. Pintura s/ madeira. 32,5*49,5 cm. M.A.U.C.
Capela da Senhora das Necessidades.
Vila da Ponte, Sernancelhe.


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Ex-voto à Senhora das Necessidades.
Pintura s/ madeira. 27*46 cm.
M.A.U.C. Prov. Capela da Senhora das Necessidades. Vila da Ponte, Sernanelhe.
 

 

 

O interesse pela cultura religiosa popular tem-se desdobrado em inúmeros trabalhos de investigação. A etnografia abriu caminhos, trazendo à luz do dia todo um mundo de manifestações quase arredias da análise dos outros campos científicos, mesmo da teologia, para a qual o convívio com o fenómeno da religiosidade popular se fez contínuo, ao longo dos tempos. A bibliografia temática disponível facilmente deixa perceber uma renovada atenção dos estudiosos a partir da década de setenta. Entretanto, a religiosidade popular torna-se alvo da atenção das mais variadas ciências, com a própria teologia a multiplicar olhares, desde o ponto de vista dogmático ao pastoral. O panorama, neste ponto, é profundamente marcado pelos países de tradição católica, tanto na Europa, como na América Latina.
Portugal tem acompanhado este renovado interesse, embora nos falte quase tudo, e estamos conscientes que a afirmação pode, porque categórica, parecer exagerada. A bibliografia portuguesa que aos ex-votos se refere ex oficio não pode ser considerada extensa, apesar dos trabalhos que se encontram à disposição do investigador. Faltam-nos recolhas abrangentes e sistemáticas, único meio de validar leituras englobantes e verdadeiramente integradoras, mesmo numa área onde as balizas interpretativas surgem profundamente condicionadas por elementos estruturais repetitivos e estereotipados. O trabalho desenvolvido em torno dos ex-votos quase se confina às grandes colecções de Museus ou Santuários de nomeada. Fontes de trabalho com esporádicos contributos a nível da divulgação são também as monografias locais, sempre difíceis de manusear de forma sistemática, no entanto, dado o seu carácter dispersivo, os ex-votos encontram-se semeados por inúmeros templos, tantas vezes insuspeitos, ou em colecções de museus, mais divulgados, já para não falarmos daqueles que as vicissitudes do tempo dispersou por mãos de particulares ou fez desaparecer por completo. Só uma concertada acção de inventário do património cultural poderá permitir que tais recolhas se concretizem. Sem elas, impossível se torna averiguar do acolhimento dado pelas comunidades às variadas devoções, para além daquilo que facilmente pode ser projectado, em virtude de outros factores (por exemplo, o culto antoniano, cuja universalidade facilmente dispensa prova).
A abordagem temática do ex-voto fez-se sempre no âmbito específico da religiosidade popular. Parece-nos, no entanto, que urge problematizar de alguma forma esta questão, sem contestarmos, muito embora, o pano de fundo em que se move. A religiosidade define por excelência o contexto originário do ex-voto. Mas importa, por um lado, definir com clareza o que se pretende caracterizar com o termo 'popular', demasiado volátil e abrangente, para ser usado indiscriminadamente. Torna-se necessário, por outro lado, indagar o sujeito do voto, bem como aproximar a execução final do ex-voto da sua fortuna. É nestes vectores que situamos as breves notas que se seguem.
A universalidade do recurso ao ex-voto, nomeadamente icónico, é uma das perspectivas que não pode ser descorada e tem, quanto a nós, de ser equacionada em moldes que importa rever, ou aprofundar, pelo menos. À partida, o ex-voto pictórico não tem obrigatoriamente de apresentar características populares, entendidas numa linha de simplicidade arcaizante. Mais depressa devemos aplicar o termo quanto ao acolhimento que o favorece e o faz transpor com facilidade barreiras sociais, utilizando uma linguagem acessível e directa, objectivamente orientada para a massa dos devotos. Embora seja comum afirmar-se que o ex-voto é mais utilizado pelas pessoas simples, que têm no campo ou no mar o seu espaço vital - afirmação que deixamos aqui sob reserva, face aos exemplares divulgados e que não consideramos ainda suficientemente representativos - não lhes pertence por inteiro. Que o digam clérigos, religiosos, militares, oficiais de justiça, nobres e suas donas, aliás, são estes os que podem com facilidade mandar executar os pequenos quadros. O ex-voto, veículo privilegiado de memória, provoca a teologia e a parentética, logo os seus agentes, traduzindo em singeleza catecismos de doutrina. É mensagem disponível e acessível. A testemunhar a graça vale por pregações, pois é garante da presença amorosa e atenta de Deus ao seu povo. Incita à oração, promove a piedade, catequiza. Interpela e encoraja ao seguimento do exemplo que comunica. Numa palavra, Integra (-se), não disputa, comunga, não (se) marginaliza. É por estas razões que se nos afigura incorrecto, porque profundamente redutor, interpretar o ex-voto, enquanto parte integrante do mais vasto fenómeno da religiosidade, por oposição a uma cultura religiosa que se classifica simplesmente de elitista, quando a realidade revela um diálogo constante.
O ex-voto não forma uma realidade à parte, encontra no santuário ou na ermida o seu lugar específico, a sua ambiência natural, não sem devolver o seu contributo à afirmação dos mesmos, pela irradiação taumatúrgica. Ainda que estes sejam espaços onde se actua a celebração litúrgica, com a festa titular à cabeça, não é a liturgia que centraliza ou enforma primariamente o seu ambiente. É a devoção. O ritmo litúrgico e cúltico da capela do santo diverge de forma clara do da matriz. Aqui celebra-se ritualmente um compromisso de vida que integra com naturalidade o espaço do quotidiano. A romagem à capela do santo assume carácter de excepção, configura-se como autêntico êxodo desse mesmo quotidiano, é libertação dos afazeres do dia-a-dia, festa desejada. Como pode ser, também visita de recurso, em momento de angústia.
Espaço de encontro e diálogo, o templo do santo exponencia a dimensão convivial e gregária do ser humano. A ele se acede em romaria, sempre com o horizonte marcado pela certeza do acolhimento. Levam-se as dificuldades da vida, aí confiadas ao protector celeste na esperança certa do alívio. Simultaneamente, geram-se espaços de gratidão, num movimento de contínuo diálogo devoto, onde o fluir da vida perpassa em gestos, que desaguam em memória. Eminentemente pessoal, na medida em que resulta de uma experiência individualizada, o ex-voto transforma-se, no templo, em vivência comunitária, a partir do momento em que é disponibilizado aos outros como exemplo da graça recebida. Ao ser comunicado torna-se contributo valioso no espalhar da devoção, enquanto certificado comprovativo da inequívoca eficácia da intercessão junto de Deus.
Um vector de análise que não temos visto suficientemente abordado é o do específico sujeito do voto. Muitas vezes a deslocarão dos ex-votos da sua ambiência resultou - para além de autenticamente truncados na sua função - numa grave mutilação da sua memória, pois nem sempre a identificação toponímica é possível ou sequer existente. Muitos ex-votos permanecem felizmente nos locais a que foram destinados. Por mais repetitiva e estereotipada que seja a sua mensagem, nos seus traços estruturantes, há sempre elementos que podem ser explorados com vantagem, se cruzados com outro tipo de informação. 
Um dos temas indelevelmente ligado ao sujeito do voto, que importará explorar com método é o das devoções. Saber até que ponto irradiam piedade e são acolhidas, quer numa área estritamente local, quer numa abrangência regional. Identificar as razões que pesam na hora de escolher o patrocínio. Contextualizar esses dados com o conhecimento possível quer dos personagens, para se aferir de antecedentes que peças de ourivesaria, tão abundantemente ofertadas até há não muito tempo, percebe-se com que sacrifícios, fotografias dos rniraculados, ou vestígios especificamente ligados às causas do voto, tudo serve para demonstrar gratidão. No entanto, em termos rigorosos, o ex-voto vai muito além dessas manifestações. Bastas vezes é o próprio santuário que acolhe estes espécimes, um ex-voto! Outras é a imagem do protector que resulta de um voto cumprido, e os exemplos poderiam aqui ser multiplicados. Ex-votos são-no, também, uma multidão de objectos dedicados ao culto, tradição que continua a cultivar-se nos dias que correm.
Como já deixámos acenado, o quadro pictórico assume, a maior parte das vezes, um papel de especial relevo pela sua capacidade narrativa, constituindo-se não apenas como particular secção no universo do ex-voto, mas também a sua forma mais amadurecido. Envolve os sentidos, emociona. Conta dificuldades, as mais diversas. Dá soluções, basta que o interlocutor se deixe contagiar pelo exemplo. À grande mole de devotos dizia mais o singelo desenho que a letra. De qualquer modo, imagine-se o olhar embevecido de tantos que tiveram a fortuna de se entregar por momentos a contemplar tais quadrinhos. Mais ainda se entre o grupo ou por perto alguém emprestava a sua voz às faixas escritas, tantas vezes gravadas com a tonalidade própria do meio. A mensagem é clara. Mais que o dramatismo do episódio narrado, é a intercessão eficaz do santo que vale, aliás tanto mais eficaz quanto portentosa a dificuldade que provoca o relato.
O cristianismo soube colher da experiência quotidianamente vivida os elementos performativos de humanidade. Daí o acolhimento dado em qualquer cultura, de qualquer época, às vivências mais verazes e realizadoras do homem. Exemplo disso é o ex-voto. O cristianismo não criou o ex-voto, herdou-o. Diríamos que fez multiplicar estes gestos e a respectiva memória, na proporção dos homens e mulheres que percorrendo o nosso caminho conseguiram fazer das suas vidas modelos a seguir no amor a Deus e ao próximo. E se as suas vidas frutificaram em obras que o tempo não apagou, então a memória cultivada no altar, seja da mais humilde ermida que se ergue no monte distante, no santuário que cresce com o acolhimento das gentes ou na matriz que de modo específico liga o indivíduo à vivência de uma comunidade, essa memória, dizíamos, multiplica-se em testemunhos de gratidão, fruto de um quotidiano vivido na esfera do infinito, onde a confiança não se esfuma mesmo nas horas carregadas de desespero. Os santos têm aqui um papel de especial intercessão, exercido por amonomásia pela Virgem Maria, Mãe do Filho de Deus. Estão próximos de Deus e não deixarão de Lhe confiar as preocupações dos seus devotos, tanto mais que eles actuaram, e com sucesso, o mesmo peregrinar.
O ex-voto pode, sem dúvida, ser tomado como objecto em si, simplesmente, pois fornece ao estudo do agir humano elementos preciosos a diversos níveis. Mas necessário se torna não esquecer que o simples objecto de cera ou madeira, a tábua pintada, ou qualquer outra manifestação neste âmbito, diz respeito ao fim de um percurso. Sem constituir o seu fulcro, torna-se a sua memória. Ao mesmo tempo que o ex-voto narra um gesto concreto, de forma mais ou menos comunicativa, pouco importa, ele testemunha toda uma realidade que penetramos com dificuldade e, na verdade, nos escapa. Se a forma ou a informação contida nos elucidam sumariamente dos motivos, pelo menos genéricos, que conduziram ao voto e ao correspondente cumprimento, pouco nos resta para avaliação das condições pessoais que levaram aí. A carga emotiva e psicológica do facto permanece na penumbra, apesar da vivacidade ou do dramatismo do relato. Não há dados que nos elucidam da factura dos ex-votos pictóricos. Raros são os casos que deixaram memória dos seus autores. Todavia, apetece imaginar do diálogo aberto entre o milagrado e o pintor, na hora de registar o sucedido, e porque não rodeado já é de novo pelos familiares ou vizinhos prontos a atestar a veracidade do acontecimento. Mais uma vez desfila o episódio, aliás, com o mesmo entusiasmo da primeira, talvez até maior. A emoção aflora aos lábios em cada palavra que transbordam. E que dizer dos gestos que preenchem tal narrar, em alguém que experimentou por dentro a graça de um novo começo, que o faz olhar a vida renovada de esperança!? Do outro lado está o pintor. Cabe-lhe colher o relato e memorizá-lo numa tabuinha, certamente sem gesticular tanto, para não estragar o esquema que, herdado, mais vezes terá aplicado noutras paragens. Não vislumbramos, ainda assim, que o volvente se alheasse por completo da tarefa que entrega com indisfarçada (diríamos justificada) alegria. Gostaria, certamente, de se reconhecer na figurinha prestes a surgir em cena, ali bem perto do protector que lhe rasgou novos caminhos. Obra feita, a história repete-se, desta vez ao fazer o depósito da feliz memória na casa do santo. Que fique bem visível para que todos saibam, pois foi milagre!
O mundo dos ex-votos constitui singular testemunho do pulsar vital que caracteriza o ser humano. Traduz um gesto que acompanha o homem de sempre. Ele está aí, ontem como hoje, a dizer da confiança com que o homem semeia o seu peregrinar, aberto à transcendência, que acompanha de perto o seu viver. Quando a hora é de dificuldade - e tudo parece perdido - a prece ergue-se para Deus, que não deixará de acolher na sua misericórdia tal pedido. Ao fixar com simplicidade um acontecimento, o ex-voto cria memória. E assim, o gesto de Jacob multiplica-se com as gerações e transmuta-se nas mais variadas formas e apologias, sendo, no entanto, sempre o mesmo fundo de esperança a unir, no correr do tempo, tantas vidas.

    João Soalheiro
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