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    Isaura dos Santos Ferreira    
 

 

 

 
 


Janeiro de 2000

Eu casei-me com 16 anos, era uma criancinha,
Não sabia o que era o mundo porque era muito novinha
Andava sempre com os meus pais
Nem um momento saía sozinha

Aos domingos havia baile e eu gostava muito de dançar,
Os meus pais iam sempre comigo, porque o meu pai sabia muito bem cantar.

Cantava muito bem o fado e cantava à desgarrada
Ia-mos todos os domingos e não se pagava nada

Vinha para cá um rapaz com quem eu gostava de dançar,
Dançava-mos sempre os dois, era ele sempre o meu par

Eu tinha dezasseis anos, ele já tinha vinte e cinco, ele comigo queria namorar,
Mas eu era tão criança, nem isso queria pensar

Namoramos oito meses, ele logo se quis casar,
Gostava tanto de mim que tinha medo que outro me fosse roubar

Eu fiquei toda contente, pensei que era uma brincadeira,
Depois é que foram elas, eu nem fazia ideia.

O meu marido e os meus sogros gostavam muito de mim
Criaram-me com tanto carinho como eu nunca tinha tido assim.

Eu fui sempre muito humilde e os meus sogros ajudava,
Mas eles tratavam-me também, não me deixavam faltar nada

Sabe Deus o que eu passei, enquanto fui pequenina,
Guardava um rebanho de cabras e não sabia fazer nadinha

Ensinaram-me a acartar terra e acartar molhos de mato
Mas eu era muito fraquinha e andava sempre doente,
Mas a alimentação era fraca e eu tinha de andar contente

Depois quando me casei, do meu marido e dos meus sogros
Eu tive tantos carinhos, que mais não podia ter.
E a Santa da minha sogra tudo me ensinou a fazer.

Que Deus a tenha no Céu que ela era muito minha amiguinha
E acabou de me criar como se eu dela fosse filhinha

Depois pedi aos meus sogros que me ajudassem para comprar um negócio,
Mas eles não tinham dinheiro,
Foram pedir dezassete contos e não desconfiavam de mim
Mas ele tinham outro herdeiro

Depois vim para a Vila da Ponte em mil novecentos e cinquent e quatro
Já tina vinte e nove anos; fartei-me de trabalhar.
Mas no fim do ano todo o dinheiro que eu devia, fui aos meus sogros pagar

O meu marido era ambulante, andava pelos povos com uma mula
Que puxava uma carroça, e vendia azeite petróleo e sabão.
Eu ficava em casa e vendia vinho, mercearia e pão

Naquele tempo não se ouvia falar nem em restaurantes e nem pensões.
Eu comecei a fazer comer e também dava dormidas e foi assim que arranjei uns tostões

Eu trabalhei tanto,tanto e vivia muito pobrezinha
Até me alimentava mal para arranjar alguma coisinha

A gente de Vila da Ponte era muito boa, uma gente muito querida
Eram todos meus clientes, ajudaram-me muito na minha vida.

Também viviam muitos pobres, ganhavam seis escuds por dia.
Mas vinham sempre para a minha taberna, faziam-me companhia

Eu não me sentava a comer, vinha com o prato na mão
Mas eles pediam-me uma batata para beberem um copo,
E eu muitas vezes dava-as todas e comia um bocadinho de pão

As pessoas que ainda estão vivas é que o aínda podem dizer,
Gostavam muito de mim e do meu marido pela nossa maneira de ser.

Depois fui à noite para casa da Professora, ainda queria aprender.
Fiz o exame da terceira e da quarta classe, isso para mim foi um prazer

Depois de fazer os exames, fui tirar a carta de condução
Mas na minha terra que é uma aldeia que pertence a Vila Nova de Poiares,
Nunca tinham visto uma mulher a conduzir um carro, foi uma admiração

Depois comprei uma Ford transit
Ia mais o meu marido corre todos os povos de Sernancelhe, Trancoso e Aguiar da Beira.
Tinha tantos clientes que tinha de vir a casa outras vezes carregar mais mercadoria.
Para mim já era uma brincadeira

A minha filha ainda era nova, mas ela não quis estudar,
Ficava no negócio de casa que sabia muito bem orientar.
Tinha-mos de trabalhar muito, eu trazia o meu filho a estudar.

Deus nos livre de voltar a tal tempo de pobreza
Ganhava-mos dois ou três tostões em cada quilo de mercearia e ainda tinha de ser pesada
Mas digo com muita satisfação
Nem em contas nem em pesos nem a medidas nunca fui envergonhada

Fui sempre pessoa séria e com muita gente lidava
Hoje já tenho setenta e quatro anos e ainda por toda a gente sou respeitada

Só o meu filho é que estudou e queria se empregar,
Havia uma vaga nas finanças de Sernancelhe e ele queria para lá ir
Eu fui falar com o chefe e ele ainda se começou a rir

Mas logo no outro dia vieram três senhores a minha casa que vinham para lanchar
Perguntaram se eu tinha peixes do rio, eu disse-lhes que sim, que depressa os ia fritar

Quando estavam a comer, omeu filho chegou, vinha do rio de pescar
Perguntaram-me se ele era meu filho, eu disse-lhes que sim
Que tinha acabado os estudos e que se queria empregar
E que havia uma vaga nas finanças de Sernancelhe,
Mas que eu não sabia quem me havia ajudar

Quando acabaram de comer disseram-me assim:
Escreva o nome do seu filho e dos pais e as habilitações que ele tem
E faça de contas que o seu filho que já está a trabalhar, foi um pedido da mãe

Eu sou Inspector de Finanças e amanhã vou para Lisboa e disso lhe vou tratar
E pode ter a certeza que o seu filho antes de um mês já está a trabalhar

Passaram-se só dez dias, meu filho recebeu uma carta que dizia:
Senhor Manuel Ferreira Simões o senhor foi nomeado com aspirante
Para as finanças de Sernancelhe, espero que seja um bom funcionário
Espero que seja um bom exemplar para com o seu chefe e para com os colegas de trabalho
Eu espero que agradeça à sua mãe

Meu Deus que eu senti tanta alegria
Ainda hoje agradeço a Deus e também à Virgem Maria

Foi sempre um bom funcionário e amigo de trabalhar
E já só lhe falta um ano para se reformar

A minha filha casou com dezoito anos e foi para a França mais o marido
Estiveram lá vinte e seis anos, fartaram-se de trabalhar e passaram grandes tormentos
Mas já vieram para Portugal, está na casinha dela
E graças a Deus só vivem dos rendimentos

Dava para escrever um ano o que eu tinha para contar
Os trabalhos que eu passei e tanto que eu trabalhei, eu nem me quero lembrar.

 

 

 


Vila da Ponte é muito linda, por isso é invejada,

Tem cá de tudo o que é bom, pouco lhe falta ou nada.

Tem cá uma farmácia com gente boa e acolhedora, recebem muito bem as pessoas

Tanto as funcionárias como a senhora Doutora.

E toda a gente de cá louvam a Nosso Senhor

Por terem cá uma boa clínica e também um bom Doutor.

Vem cá gente de muito longe que vêem muito doentes.

Mas com o carinho que são tratados eles ficam muito contentes.

À clínica de medicina e clínica dentária

Toda a gente está contente, era o que cá faltava.

Já são duas que cá há e ambas têm clientes

Porque há muito quem precise de tirar e tratar os dentes

Também cá há duas casas que ambas têm Brasão

Uma está muito linda outra vai caír ao chão

Dá pena olhar para ela a toda a gente que lá passa

Está num sítio muito lindo que é o largo da praça.

Também temos a Igreja que é um lindo monumento

Onde está a Nossa Senhora e o Santíssimo Sacramento.

Também cá temos o rio Távora que enche a barragem do Vilar.

Junta-se cá muita gente que vem para cá pescar.

Também cá há seis cafés e um belo restaurante

Que têm sempre muita gente ao almoço e ao jantar.

Quem lá vai é bem recebido e gosta de lá voltar.

Também temos Nossa Senhora das Necessidades

Que está lá em cima na capelinha do monte.

Confesso-lhe que dê saúde a toda a gente da Vila da Ponte

Ela é muito adorada e por toda a gente seja louvada.

Também temos a escola a pré e a primária

Andam lá muitos meninos mas que dão muito trabalho

Porque alguns são pequeninos.

Também há escola à noite para as pessoas adultas e eu sou a mais idosa.

Mas eu vou sempre contente e até me sinto vaidosa.

Tenho setenta e quatro anos, os estudos para mim pouco me podem valer,

Mas sinto-me lá muito bem e aínda gosto de aprender.

As professoras e professores por Deus foram escolhidos,

Tratam as alunas tão bem, e são pessoas muito queridas.

Também cá há uma cabeleireira que tem muita freguesia

E trabalha muitas vezes quatorze horas por dia

Também há duas tabernas e ambas têm mercearia,

Uma é da D. Dulce e outra da D. Maria

Só o que nos faz muita falta é um bom Centro de dia.

Compraram muiitos terrenos que era para fazer um lar

Deixaram encher de silvas, aínda estão por cultivar,

E há cá muita gente idosa que precisava de lá estar

 

 
Vila da Ponte, 23 de Janeiro de 2001


Em mil novecentos e cinquenta e quatro tinha eu 29 anos, vim para a Vila da Ponte
Arrendei cá uma casa que tinha uma pequena taberna onde eu vendia vinho, azeite, petróleo e sabão

Mas o dinheiro que troxe para cá era todo pedido, eu não tinha nem um tostão.
Naquele tempo não havia restaurantes nem pensões,
Começei a dar comidas e dormidas, foi assim que ganhei uns tostões.

Fartei-me de trabalhar tanto, tanto trabalhei,
Mas depois no fim dum ano tudo o que eu devia paguei

Havia cá muita pobreza, algumas pessoas andavam a ganhar o dia,
mas ganhavam pouco dinheiro, só seis escudos por dia.

Depois passado algum tempo também pús mercearia,
mas só ganhava dois tostões em cada quilo que vendia.

Mas a gente de Vila da Ponte eram amigas de me ajudar,
Tudo quanto precisavam à minha casa vinham comprar.

Eu nunca me sentava a comer, vinha sempre para a taberna com o meu prato na mão
E os homens diziam-me assim: senhora Isaura dê-me uma batata para eu beber um copito
E eu muitas vezes dava-as todas e comia um bocadinho de pão.

Mas passado muito tempo tive um dia de alegria
Porque consegui comprar a casinha onde eu vivia

Era tudo uma famíliia, gente boa, gente humilde e educada,
Gostavam muito de mim e do meu marido e fui sempre respeitada.

Depois passou muito tempo, a Vila da Ponte mudou
Porque as pessoas mais novas, para o estrangeiro emigrou.

Andaram lá muito tempo, voltaram a regressar
Fizeram cá lindas casas para virem para cá morar.

Agora há cá muitas pessoas idosas que vivem na solidão
Precisava-mos cá dum centro de dia para conviver-mos uns com os outros para alegrar o nosso coração.

Todas as pessoas idosas vivem da sua reforma
Se não fosse isso andava muita gente de porta em porta a pedir uma esmola

Eu peço aos nossos Governantes que se lembrem dos velhinhos todos
Para lá caminhamos e é triste viver-mos sozinhos.

 

 

26 de Outubro de 1999
 

Com 74 anos aínda vou para a escola
Espero acabar o meu curso para receber uma esmola.

A professora de Francês é um pouco exigente
Mas ensina muito bem e eu fico muito contente

A professora de Português parece uma bonequinha
Mas ensina-me o que eu não sei como fazia a minha mãezinha

O professor de Matemática é um jovem muito querido
Mas é obrigado a rir-se com as coisas que eu lhe digo

E mais lhe quero dizer que uma jovem como eu é difícil de aprender

Quando eu vou para a Escola apanho frio e chuva
Mas vou passar o meu tempo porque sou mulher viuva

Os professores e as alunas dão-se todos muito bem
Eu como sou a mais jovem respeitam-me como mãe

  Eu peço a Nossa Senhora que ajude os meus superiores
E que ajude toda a gente dos mais pobrezinhos aos doutores

A senhora professora Dulce é que nos meteu nesta brincadeira
Espero que ela arranje dinheiro depressa para nos levar à ilha da Madeira

O telemóvel tocou, aínda toca outra vez
É sempre dentro da pasta da professora de Português

 

Janeiro 2000
 

Acabaram as festas do Natal, agora são as dos Reis
Olhai lá se em vossas casas tendes coisas que nos deis

Senhora professora Dulce boas festas vos queremos dar
Que a senhora seja feliz para muita gente ajudar

Vamos cantar-lhe os Reis sentadinhas na cortiça
Mas esperamos que nos dê uma valente chouriça, e talvês um salpicão
E para a mesa ficar bem posta, também tem que nos dar pão

E aínda outra coisa – é um garrafão de vinho
Mas como nós somos muitas só bebemos um copinho

E com está muito frio para fazer-mos uma fogueira
para assar as chouriças, nem que seja na lareira

Senhora professora Dulce isto é uma brincadeira
Mas esperamos que nos diga se vamos à ilha da Madeira.

Dizem que há lá lindas flores como eu aínda não vi
Mas também quero cumprimentar o Alberto João Jardim

Como eu nunca tive férias, e não sabia fazer nada, só sabia trabalhar
Mas agora esto reformada, já tenho muito vagar
Só que a reforma é pequena e não me posso alargar

Eu vou pedir a quem manda que me dê mais uns tostões
E aínda vou ver seconsigo ir à roda dos milhões.

Já estou a pedir demais, mas ficava muito contente
Se me saíssem vinte mil contos, dividia com muita gente

A toda a gente que me ouve, vou pedir muita desculpa
Porque quem não me conhecer, julga que eu sou maluca.

Alunas de Vila da Ponte são loucas, mas têm valor
Há casadas e viuvas mas aprendem com amor

No dia dezasseis de Dezembro vamos todas até ao restaurante Beira-Rio que nos fazem lá o jantar

Alunas de Sernancelhe vêm-nos fazer companhia
Jantamos todas no restaurante e vai ser uma alegria

Senhora das Necessidades que estais no cimo do Monte
Para ajudar as alunas de Sernancelhe, e também as de Vila da Ponte.

  Viva o senhor Leonel e també a Dª Otília
Que nos receberam também, como recebem a família.

  As professoras e o professor que arranjaram esta organização
Que Nossa senhora os ajude e o que peço e o que eu desejo do meu coração

  Sou viuva e vivo só, numa triste solidão.
Vou toda contente à escola, lá alegro o meu coração

As lágrimas que eu tenho chorado, faziam rodar um moínho.
A maior pena que tenho é de quem vive no mundo sozinho

Não tenho ido à escola, são as férias do Natal
Mas tem-me feito tanta falta o convívio que lá passo
Que até me tenho sentido mal

Como eu vivo sózinha numa triste solidão
O convívio que lá passo alegra-me o coração

Tanto às professoras como ao professor todas as alunas querem do coração
Gostamos muito de todos porque nos dão muita atenção

Tenho setenta e quatro anos, estudos para mim já pouco podem valer
Mas vou passando o meu tempo e aínda gosto de aprender

Qualquer dia vou-me embora para onde temos de andar
Mas no Céu hei-de pedir a Deus para as professoras e o professor ajudar

Quando acabarem as aulas todas, vão para as sus terras
Só o que fica mais perto é o professor que vive em Nelas

Quando elas se forem embora eu não as voltarei a ver
Mas o carinho que me têm dado eu nunca mais vou esquecer

Eu trabalhei tanto, tanto e vivi muito pobrezinha
Agora vejo-me só, triste, sorte foi a minha

Meus filhos são muito queridos, mas têm de trabalhar também
Adoro os meus netinhos, mas andam todos a estudar
Se eu for para casa deles, sozinha tenho de estar

Cá vou vivendo sozinha, só enquanto eu puder, depois vou para os meus filhos
Há-de ser o que Deus quiser.

 

11-4-2000
 

Senhora professora Elsa, eu quero-a felicitar
Pelo trabalho que tem tido para o Francês nos ensinar

A senhora professora Maria José ensina-nos o Português
Eu já saí da escola há setenta e quatro anos, e ando lá outra vez

O senhor professor Fonseca passa-nos cada rasteira
Tem-nos ensinado tantas contas, mas para nós agora já é uma brincadeira

Todos nos ensinam bem, e são pessoas muito queridas
E tratam também as alunas e de todas são amigas

Quando acabarem as aulas eu já ando a pensar
E peço a Nossa Senhora que aínda as volte a encontrar

Para outro lado que vão Nossa Senhora as ajude,
E que sejam muito felizes e que Deus lhes dê saúde

Eu afeiçoei-me às pessoas mas sempre fui assim,
Que Nosso Senhor as ajude e que lhe dê tudo de bom como eu desejo para mim

Por Deus sejam abençoadas, são esses os meus desejos
E que aínda as volte a ver para lhes dar dois grandes beijos

Eu vivo sozinha e triste e com muita solidão
Elas têm-me ajudado muito, a alegrar o meu coração

Os estudos para mim pouco me podem valer,
Mas o carinho que me deram, eu nunca vou esquecer

 

       

         
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Janeiro de 2001

O meu menino Jesus. Faz anos pelo Natal que nasceste numas palhinhas,
Para nos dares o exemplo de nascermos pobrezinhos.
És da Sagrada Famíla de Nossa Senhora e de S. José
dai saúde a toda a gente que em vós tem muita fé

Eu peço ao Menino Jesus e também a Nosso Senhor
Que dê saúde ao Dr. Canotilho que é um Santo Doutor

Vem lá muita gente de longe e vem a qualquer hora e já me perguntaram a mim:
Ó minha senhora, dizem que há aqu um médico santo, faz favor ensina-me onde ele mora
Não conheci as pessoas de onde eram, também não sei,
Mas o consultóro dele fui eu que lhe ensinei.

Tanto val serem os novos como serem os velhinhos, sentem-se bem ao pé dele
Porque lhes dá muita atenção e dá-lhe muitos carinhos.
No tempo em que estamos é muito raro ver-se isto
Temos cá uma pessoa tão boa, podemos louvar a Deus e a Nosso Senhor Jesus Cristo

Estas pessoas assim por Deus foram escolhidas.
Nasceram só para fazer bem e por toda a gente são muito queridas

Senhor Doutor Canotilho
Nossa Senhora lhe dê saúde e à sua esposa e seus filhinhos
É o que lhe deseja uma mulher de 75 anos a quem o senhor tem dado muitos carinhos.

 

   

 

   

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