| Isaura dos Santos Ferreira | ||||
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Eu casei-me com 16 anos, era uma criancinha, Cantava muito bem o fado e cantava à desgarrada Vinha para cá um rapaz com quem eu gostava de dançar, Eu tinha dezasseis anos, ele já tinha vinte e cinco,
ele comigo queria namorar, Namoramos oito meses, ele logo se quis casar, Eu fiquei toda contente, pensei que era uma
brincadeira, O meu marido e os meus sogros gostavam muito de mim
Sabe Deus o que eu passei, enquanto fui pequenina, Depois quando me casei, do meu marido e dos meus
sogros Que Deus a tenha no Céu que ela era muito minha
amiguinha Depois pedi aos meus sogros que me ajudassem para
comprar um negócio, Depois vim para a Vila da Ponte em mil novecentos e
cinquent e quatro O meu marido era ambulante, andava pelos povos com
uma mula Naquele tempo não se ouvia falar nem em restaurantes
e nem pensões. Eu trabalhei tanto,tanto e vivia muito pobrezinha A gente de Vila da Ponte era muito boa, uma gente
muito querida Também viviam muitos pobres, ganhavam seis escuds
por dia. Eu não me sentava a comer, vinha com o prato na mão As pessoas que ainda estão vivas é que o aínda
podem dizer, Depois fui à noite para casa da Professora, ainda
queria aprender. Depois de fazer os exames, fui tirar a carta de condução Depois comprei uma Ford transit A minha filha ainda era nova, mas ela não quis
estudar, Deus nos livre de voltar a tal tempo de pobreza Fui sempre pessoa séria
e com muita gente lidava Só o meu filho é que
estudou e queria se empregar, Mas logo no outro dia
vieram três senhores a minha casa que vinham para lanchar Quando estavam a comer,
omeu filho chegou, vinha do rio de pescar Quando acabaram de comer
disseram-me assim: Eu sou Inspector de
Finanças e amanhã vou para Lisboa e disso lhe vou tratar Passaram-se só dez dias,
meu filho recebeu uma carta que dizia: Meu Deus que eu senti
tanta alegria Foi sempre um bom
funcionário e amigo de trabalhar A minha filha casou com
dezoito anos e foi para a França mais o marido Dava para escrever um
ano o que eu tinha para contar
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Vila da Ponte é muito linda, por isso é invejada, Tem cá de tudo o que é bom, pouco lhe falta ou nada. Tem cá uma farmácia com gente boa e acolhedora, recebem muito bem as pessoas Tanto as funcionárias como a senhora Doutora. E toda a gente de cá louvam a Nosso Senhor Por terem cá uma boa clínica e também um bom Doutor. Vem cá gente de muito longe que vêem muito doentes. Mas com o carinho que são tratados eles ficam muito contentes. À clínica de medicina e clínica dentária Toda a gente está contente, era o que cá faltava. Já são duas que cá há e ambas têm clientes Porque há muito quem precise de tirar e tratar os dentes Também cá há duas casas que ambas têm Brasão Uma está muito linda outra vai caír ao chão Dá pena olhar para ela a toda a gente que lá passa Está num sítio muito lindo que é o largo da praça. Também temos a Igreja que é um lindo monumento Onde está a Nossa Senhora e o Santíssimo Sacramento. Também cá temos o rio Távora que enche a barragem do Vilar. Junta-se cá muita gente que vem para cá pescar. Também cá há seis cafés e um belo restaurante Que têm sempre muita gente ao almoço e ao jantar. Quem lá vai é bem recebido e gosta de lá voltar. Também temos Nossa Senhora das Necessidades Que está lá em cima na capelinha do monte. Confesso-lhe que dê saúde a toda a gente da Vila da Ponte Ela é muito adorada e por toda a gente seja louvada. Também temos a escola a pré e a primária Andam lá muitos meninos mas que dão muito trabalho Porque alguns são pequeninos. Também há escola à noite para as pessoas adultas e eu sou a mais idosa. Mas eu vou sempre contente e até me sinto vaidosa. Tenho setenta e quatro anos, os estudos para mim pouco me podem valer, Mas sinto-me lá muito bem e aínda gosto de aprender. As professoras e professores por Deus foram escolhidos, Tratam as alunas tão bem, e são pessoas muito queridas. Também cá há uma cabeleireira que tem muita freguesia E trabalha muitas vezes quatorze horas por dia Também há duas tabernas e ambas têm mercearia, Uma é da D. Dulce e outra da D. Maria Só o que nos faz muita falta é um bom Centro de dia. Compraram muiitos terrenos que era para fazer um lar Deixaram encher de silvas, aínda estão por cultivar, E há cá muita gente idosa que precisava de lá estar
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| Vila da Ponte, 23 de Janeiro de 2001 Em mil novecentos e cinquenta e quatro tinha eu 29 anos, vim para a Vila da Ponte Arrendei cá uma casa que tinha uma pequena taberna onde eu vendia vinho, azeite, petróleo e sabão Mas o dinheiro que troxe para cá era todo pedido, eu não tinha nem um tostão. Naquele tempo não havia restaurantes nem pensões, Começei a dar comidas e dormidas, foi assim que ganhei uns tostões. Fartei-me de trabalhar tanto, tanto trabalhei, Havia cá muita pobreza, algumas pessoas andavam a ganhar o dia, Depois passado algum tempo também pús mercearia, Mas a gente de Vila da Ponte eram amigas de me ajudar, Eu nunca me sentava a comer, vinha sempre para a taberna com o meu
prato na mão Mas passado muito tempo tive um dia de alegria Era tudo uma famíliia, gente boa, gente humilde e educada, Depois passou muito tempo, a Vila da Ponte mudou Andaram lá muito tempo, voltaram a regressar Agora há cá muitas pessoas idosas que vivem na solidão Todas as pessoas idosas vivem da sua reforma Eu peço aos nossos Governantes que se lembrem dos velhinhos todos
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26 de Outubro de 1999 Com
74 anos aínda vou para a escola A
professora de Francês é um pouco exigente A
professora de Português parece uma bonequinha O
professor de Matemática é um jovem muito querido E
mais lhe quero dizer que uma jovem como eu é difícil de aprender Quando
eu vou para a Escola apanho frio e chuva Os
professores e as alunas dão-se todos muito bem A
senhora professora Dulce é que nos meteu nesta brincadeira O
telemóvel tocou, aínda toca outra vez
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Janeiro 2000 Acabaram as festas do Natal, agora são as dos Reis Senhora
professora Dulce boas festas vos queremos dar Vamos
cantar-lhe os Reis sentadinhas na cortiça E aínda outra
coisa – é um garrafão de vinho E com está
muito frio para fazer-mos uma fogueira Senhora
professora Dulce isto é uma brincadeira Dizem que há lá
lindas flores como eu aínda não vi Como eu nunca
tive férias, e não sabia fazer nada, só sabia trabalhar Eu vou pedir a
quem manda que me dê mais uns tostões Já estou a
pedir demais, mas ficava muito contente A toda a gente
que me ouve, vou pedir muita desculpa Alunas de Vila
da Ponte são loucas, mas têm valor No dia
dezasseis de Dezembro vamos todas até ao restaurante Beira-Rio que nos
fazem lá o jantar Alunas de
Sernancelhe vêm-nos fazer companhia Senhora
das Necessidades que estais no cimo do Monte As
lágrimas que eu tenho chorado, faziam rodar um moínho. Não
tenho ido à escola, são as férias do Natal Como
eu vivo sózinha numa triste solidão Tanto
às professoras como ao professor todas as alunas querem do coração Tenho
setenta e quatro anos, estudos para mim já pouco podem valer Qualquer
dia vou-me embora para onde temos de andar Quando
acabarem as aulas todas, vão para as sus terras Quando
elas se forem embora eu não as voltarei a ver Eu
trabalhei tanto, tanto e vivi muito pobrezinha Meus
filhos são muito queridos, mas têm de trabalhar também Cá
vou vivendo sozinha, só enquanto eu puder, depois vou para os meus filhos
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11-4-2000 Senhora
professora Elsa, eu quero-a felicitar A
senhora professora Maria José ensina-nos o Português O
senhor professor Fonseca passa-nos cada rasteira Todos
nos ensinam bem, e são pessoas muito queridas Quando
acabarem as aulas eu já ando a pensar Para
outro lado que vão Nossa Senhora as ajude, Eu
afeiçoei-me às pessoas mas sempre fui assim, Por
Deus sejam abençoadas, são esses os meus desejos Eu
vivo sozinha e triste e com muita solidão Os
estudos para mim pouco me podem valer,
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Janeiro de 2001 O meu menino Jesus. Faz anos pelo Natal que nasceste
numas palhinhas, Eu peço ao Menino Jesus e também a Nosso Senhor Vem lá muita gente de longe e vem a qualquer hora e já
me perguntaram a mim: Tanto val serem os novos como serem os velhinhos, sentem-se
bem ao pé dele Estas pessoas assim por Deus foram escolhidas. Senhor Doutor Canotilho
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